Livro: Julho transformador

Colecionador de Histórias - Vermelho -

Colecionador de Histórias - Vermelho


Compartilharei convosco uma história da minha imensa coleção.


Uma mulher chorava desconsolada no hospital a perda do filho, ao seu lado um senhor que mesmo triste, não demonstrava sentir tamanha dor, quando o doutor abriu a porta.
– Senhora! Terminamos o processo! – ela nem o olhava e continuava o planto. – Ligo para alguém?
– Não precisa! – falou o senhor. – Já liguei para a única parenta viva.
– Sim! Mas é que... – apontou para mulher. –parece precisar de alguém!
– Quem? O esposo? Morreu anos atrás de um tumor no cérebro, parentes? Era filha única, só possui uma tia que mora muito longe daqui.
– O que faço? – indagou o médico.
– Se precisar o chamo! – exclamou o senhor, o doutor meneou a cabeça e saiu.
...

Horas se passaram quando as lágrimas começaram a cessar.
– Chame o médico! – ordenou ao homem. Levantou-se e fez conforme pedirá.
– Senhora? – perguntou o doutor.
– Gostaria de ver quem receberá o coração.
– Senhora! O coração do seu filho foi para outra criança. Não podemos informar...
– Quando me pediram a autorização para a doação desejei ver o receptor...
– Mas...
– Por gentileza leia o prontuário. – fez sinal com a mão para ele sair, minutos depois o médico retornou.
– Realmente tem esse termo, a família do receptor concordou, então estarei mostrando a criança para a senhora. – ela se levantou.
Quando estavam passando por um quarto percebeu a alegria de uma família que entrava com balões, olhou a menina de cachos loiros deitada na cama, levou à mão na boca toda feliz, e ficou parada.
– Senhora! Por aqui! – foi quando percebeu que não era aquele quarto. O doutor parou, ela se aproximou ficando de frente para ele.
– Poderás ver, mas não será permitido contato, acima do meu obro direito esta o jovem que receberá o órgão. Ela se aproximou do médico para ver, e viu um casal de mãos dadas e levou a mão na boca exclamando.
– Como assim! Vocês deram o coração do meu filho para um menino negro. – o médico arregalou os olhos.
– Como assim! Senhora retire-se desse hospital agora.
– Como puderam fazer isso... – chorou.
– Senhor a retire daqui, antes que eu chame as autoridades.
– Seus monstros como... – o senhor tentou a conter. – me solte... – gritou.
– Joana é melhor irmos...
– Quero que re...
– Me compadeço da senhora pela sua perda, mas é uma pessoa letrada, então preste atenção no que irei dizer, por esse motivo não mostramos os possíveis receptores antes da operação, porque uma pequena, uma pequeníssima fração da população acredita que a cor da pele tem relevância, não tem. E como à senhora só exigiu ver o receptor, esta feito, saia agora deste hospital ou chamarei a segurança visto que não esta autorizada a sua permanência.
O senhor a retirou.

...

Passado meses, a recuperação foi um sucesso o menino corria pela casa aprontando, como se nunca tivesse ido a um hospital. Quando as perguntas que ficam armazenadas em nosso âmago ganharam liberdade.
– Mamãe de quem veio o coração? – os pais sentiram um calafrio. O pai respondeu.
– De um menino meu filho!
– Então ele mo...
– Sim filho!
– Gostaria de conhecer os pais dele! – sabiam que aquela conversa cominaria naquilo, eles conversaram sobre o que dizer ao filho por conta do fato relatado pelo doutor, por vezes pensaram em mentir, dizer que também morreram.
– Talvez não seja uma boa ideia filho!
– Por que não?
– Porque não!
– E se mesmo assim eu quiser conhecê-los. – o pai respirou fundo e olhou para a mãe, que disse.
– Filho ela não gosta de pessoas como nós!
– Pobres! – eles balançaram a cabeça e a mãe olhou para as mãos e o menino entendeu. – Vai ver ela nunca conheceu um bombonzinho como eu! – e sorriu, lagrimas vieram nos olhos dos pais.
– Não filho ela nunca conheceu! – sorriram.
– Então ainda há tempo! Vocês sabem o endereço dela? – menearam a cabeça. – Oba! Vou pensar num dia ai vamos lá.


...
Um mês se passou.
– Podemos ir amanhã mamãe?
– Onde filho?
– Na casa da família do doador!
– Justo amanhã querido!
– Sim! Amanhã à noite.
– Tá! Avisarei teu pai.
– Poderia me passar o endereço antes? – a mãe meneou a cabeça e anotou – Porém, iremos juntos.
– Eu sei!
No dia, a mãe foi no quarto.
– Filho esta demorando, você mudou de ideia. – ele estava pronto, sentando na cama com a cabeça baixa e um pouco triste.
– O que foi filho?
– Não sei o que dizer! Pensei se fosse o contrario o que eu diria a vocês... – lagrimas saltaram do rosto.
– Seja você mesmo que tudo saíra bem! Meu maravilhoso bombonzinho! – sorriu. Contagiando-o.
– Isso mesmo! Já sei! A mãe a propósito, não fique brava comigo porque eu quebrei o cofrinho. – saiu correndo antes das indagações.
Quando o pai estacionou o carro próximo a casa viu uma movimentação.
– Acho melhor não filho! Ela deve estar com parentes. – ele abriu a porta do carro.
– São meus amigos pai. – quando os pais se aproximaram, perceberam que eram os amigos da escolinha do filho com seus respectivos pais, todos estava com uma vela na mão, protegida por uma folha branca. E viram seu filho ir a frente puxar uma canção meio desafinado.
– Quero ver... – todas as crianças começaram a cantar, fazendo um coro harmonioso.
Você não chorar, – uma luz se acendeu na sala, e uma fresta na cortina se abriu.
– Não olhar pra trás, nem se arrepender, do que faz, quero ver o amor vencer, mas se a dor nascer, você resistir e sorrir... Se você pode ser assim, Tão enorme assim, eu vou crer... que o Natal existe, que ninguém é triste, que no mundo há sempre amor, bom Natal, um feliz Natal, Muito amor e paz pra você, pra você... pra você. – ele ficou no meio com lagrimas nos olhos esperando que alguém saísse à mãe ao perceber sua frustração se ajoelha.
– Filho... – a porta se abre e um senhor veio ao encontro deles.
– Quem sugeriu isso?
– Eu! – levantou o menino a mão.
– Poderia entrar um pouquinho, lógico seus pais também.
– Podemos! – respondeu antes que eles pudessem dizer algo. Pediu para os amigos esperarem um pouco. Quando entraram perceberam o quanto era rica aquela família.
– A senhora gostaria de falar a sós com o menino...
– Não imagine se... – o menino colocou a mão em cima da mão da mãe, e sorriu.
– Me deixa ser eu mesmo.
– Tá bem!
– Eu ficarei com eles, podem se assentar. – apontou as cadeiras.
Foram a outra sala, mas que mesmo assim permitia o pais verem o filho.
– Pode sentar. – apontou o empregado.
– Obrigado! – exclamou com um sorriso no rosto.
– Sabe quem sou? – indagou à senhora.
– Sim! Cadê sua família...
– Por quê?
– É que... eu queria conversar com todos.
– E está...
– E seu marido?
– Morreu! Por que dessa encenação toda?
– Queria agradecer...
– Por meu filho ter morrido?
– Não! E sim por mesmo no momento de imensa dor, decidiu ajudar e impedir que outras famílias passassem pelo passava.
– Fiz a vontade de meu filho, não a minha...
– Eu sou filho também, sei que muitas vezes quando quero as coisas nem sempre minha mãe me dá... então sim, creio que fizeste a vontade dos dois.
– Tem fundamento suas palavras.
– Ainda dói?
– Sim! Todos os dias! – lagrimas caíram.
O menino se levantou e se aproximou dela abrindo os braços, ela o olhou, ele a abraçou e o ouvido dela ficou perto do coração dele.
– Ouve o coração do seu filho? – ela balançou a cabeça sem nada dizer. – Ele esta feliz, como eu também estou, não tenho como fazer a dor passar, mas irei orar para que fique menor e fique como uma cicatriz, uma lembrança triste que não dói mais.
– Obrigada!
– Eu que sempre terei que te agradecer... por este maravilhoso ato... tenho que agradecer este maravilhoso coração vermelho! – a ultima palavra a fez lembrar do ocorrido no hospital.
– Você sabe?
– Sim!
– E porque vieste?
– Porque eu tinha certeza que a senhora estava perdida... e que eu poderia mostrar o caminho... o verdadeiro e único caminho.
– Qual? – lagrimas escorriam de sua face.
– O amor! – ela o abraçou mais forte.
– Quisera eu ter te conhecido antes! – depois de uns minutos ela o largou. – Chame os seus amigos e peça para que peguem um presente! – indicou com o rosto a arvore de natal na sala repleta de presentes.
– Tá! – ele saiu e chamou a todos, que entraram em ordem e em silêncio, cada um pegou um presente, deram um abraço nela, muitos entregaram cartinhas de feliz natal, e foram saindo. Quando só ficou o menino.
– E você não vai pegar? – ainda havia grandes caixas de presentes. Ele sorriu e foi para o lado das caixas, mas depois fitando a árvore apontou para algo e o empregado se aproximou o levantando e ele pegou e retornou com o objeto.
– Entre todos os maiores presentes preferiste um enfeite?
– O meu presente de natal eu ganhei a alguns meses, um ótimo e bondoso coração vermelho, hoje... – ele abriu a mão mostrando o que pegara. – só levarei este anjo, para lembrar dois dos melhores anjos que tive na vida, o seu filho, e a senhora... – comovida ela o abraçou e disse:
– Gostaria de o ver outra vez!
– Sim! Me verá muitas outras vezes! – sorriu.

...


Essa é uma de muitas histórias que guardo, volte outra vez que compartilharei outras.

O colecionador de Histórias.
Roberto Albano


                        


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